AULA MAGNA: Cinema Negro Por RICHARD PEÑA

As Cores Integradas no Universo Cinematográfico: Um Passeio Didático pelo Cinema Negro 
da Segregação Racial

Por Fabricio Duque

É inquestionável a ideia de que todo o Universo conspira para se chegar a um determinado resultado. Se o curador da mostra “Oscar Micheaux – O Cinema Negro e A Segregação Racial”, acontecendo no Centro Cultural Banco do Brasil, Paulo Ricardo G. de Almeida, não tivesse a “inspiração” de escolher o tema como trabalho de conclusão final do curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, nós não poderíamos conhecer a fundo este diretor americano (e esquecido – até por ele mesmo). E se o palestrante convidado da mostra, o Prof. Ricard Peña, da Universidade de Columbia, não tivesse se aprofundado nesta história, nós, também, seríamos impedidos desta aula exemplar: didática, informativa e obrigatória como memória e de registro do mundo da sétima arte. O evento comportou-se como uma aula magna. Fundador do cinema negro americano em 1919, o americano Oscar Micheaux (2 de Janeiro de 1884 - 25 de Março de 1951) desempenhou papel fundamental na formação do cinema negro americano por ter sido o primeiro negro a produzir um longa-metragem nos Estados Unidos. O trabalho do Vertentes do Cinema foi apenas transcrever as palavras que foram ditas.

“Para existir um cinema independente, precisa-se de um cinema dependente”.

“Os filmes de Oscar Micheaux foram financiados pela comunidade, tendo às vezes um anjo branco. Exibidos em lugares não convencionais (na mesma área segmentada negra)”.

“É um misto de folclore, música, crítica social, orçamento baixo”.

“”O Nascimento de Uma Nação” (leia a crítica AQUI), de D.W. Griffith, representou um insulto aos negros e uma perigosa falsificação da América após a Guerra Civil, sendo o primeiro filme projetado na Casa Branca”.

“Oscar Micheaux realiza “Dentro de Nossas Portas” como uma resposta ao filme do Griffith”, em 1920, o diretor responsável pelo gênero “race movies” da segregação racial. Logo no início, a crítica debochada de não existir conflitos entre o norte e o sul americano, quando uma professora negra do sul visita seu primo negro do norte. “O sucesso deste cinema significava que o sonho americano era possível também para os afro-americanos, fazendo filmes para toda a América, com temas não muito entendíveis aos brancos (os atores não tinham aulas de interpretação e os roteiros eram ilógicos). Eram sofisticados e crus – visões únicas do retrato americano sem filtro. Registrando crenças de raízes fortes populares (sequências de performances musicais e dançantes). O profano versus o sagrado, usando o sonho como tortura, medo e ou desejo”.

“Oscar Micheaux não se adaptou ao cinema sonoro”. Preferia imagens surreais e epifânicas à padronização de um estilo. “Menos na narração e mais nas imagens fortes e chocantes, favorecendo as imagens, com pressentimentos, flashbacks dentro de flashbacks, como uma vontade de criar uma visão (o personagem olha para o público e sente a conexão). Instaurava um cinema afro nos anos vinte, quase como uma vingança, quase como uma supremacia negra, e quase sem brancos”.

“O material não foi totalmente perdido, por causa dos arquivistas e historiadores. Até porque Oscar Micheaux jogou tudo fora no lixo no final de sua vida. Então temos que adivinhar. São até agora 87 filmes resgatados”.

“O gênero BLAXSPOITATION era produzido por empresas brancas. Eram filmes para jovens afro-americanos e latinos nos grandes palácios. Uma estratégia dos estúdios a fim de ganhar mercado. Não era independente, apenas para conter a frustração e a violência anárquica”.

“Nós americanos, não reconhecemos o cinema de Oscar Micheaux. Até os afro-americanos se incomodavam com a visão burguesa do diretor. Ele não queria revolução. E sim, espaço. Entrar no sonho americano”.

“O sonho de Oscar é Barack Obama”.

“A KU KLUX KLAN queria apenas controlar o espaço. Dizendo aos negros “saibam e respeitem os limites de cada lugar”. O filme “Dentro de Nossas Portas”, de Oscar, explicita a contra partida desta ideia”.


“Os filmes de Oscar Micheaux são de domínio púbico. Qualquer um pode divulgar sem precisar pagar direitos autorais. Com exceção de “Corpo e Alma””.